Tuesday, June 04, 2013

Ritmos & Locuções

Caro Stephan,

O que fazer? Estamos perdidos neste lugar de desolação e poeira. Quando viram as novas chuvas? Os coiotes farejam o ar há procura de sangue para saciar a sua sede, mas aqui não há nada. Os relampagos ecoam em seco e toda a planicie estremece. Estaremos condenados a morrer neste lugar ou a fugir para pastagens com algo mais para dar a não ser pó.

Os tempos de glória estão longe e receio que não irão regressar, a minha cama está vazia há mais de dois anos e com ela toda a glória que é ter uma mulher presente na vida. Não só pelo sexo, mas pela intimidade e pelas conversas, pelas refeições quentes e pelos seios macios em que deitar a cabeça ao final de um dia de trabalho. Encontro-me aterrorizadamente sozinho. O Sparky, companheiro de uma vida, morreu há coisa de três meses. Pergunto-me o que faz um homem, com uma vida pela frente num lugar como este.

Passo os dias de caneta e papel, na esperança que algo de suficientemente bom surja e consiga publicar. Há meses que não recebo cartas de editoras, apesar de me deslocar à cidade todas as semanas. Eu vejo nos olhos deles, a mesma pergunta que me coloco todos os dias. "O que estou a fazer neste lugar?" Com certeza que uma cabana no meio de uma pastagem seca pode ser um bom leito de morte, mas não pretendo desaparecer tão cedo.

E tu, meu caro Stephan, o que tem acontecido na tua vida? Se me pudesses visitar seria um excelente presente, talvez trazer um garrafão de vinho ou então uma carta branca para sair deste lugar. Porque não me vens visitar? Compreendo, que as tuas obrigações enquanto chefe dos caminhos-de-ferro do Oeste te consumem muito tempo, mas ainda assim... Sinto a tua falta e das aventuras que passamos, enquanto jovens.

Falta-me força para ter algo mais sobre que te escrever. Ouvi do Jack há alguns dias, recebi uma carta dele, que agora está na corrida do ouro do Klondike. Contou-me de algumas histórias que estavam prontas a ser publicadas. Torço pelo sucesso dele, mas temo que as condições do Norte sejam demasiadas duras para o Jack, apesar de ele ter sido criado entre ratos e ferro.

Responde-me com brevidade, poderei já cá não estar quando receber a tua carta, por isso meu velho Stefan, escreve-me e se as tuas notas o permitirem traz-me uma mulher do bordel de San Fernando. Faz tempo...

Sinceramente,
Edward K.

Thursday, May 16, 2013

The beautiful scar

When you have been through so much pain, nothing can hurt you anymore. You don't feel the iron clashing against your chest, in fact you don't even care. It can't hurt you. In the world nothing is constant and sometimes the change is so big and unexpected that the pain breaks you in half. You don't know what to do, scared and broken you ask the Gods for mercy, for a piece of justice, but your prayers find no receiver and there you are alone, in a dark and smelly room, with tears running down your face. There are no strength to stand up, there are no joy that can possibly save you from where you are know.

While you are there nobody will care about you and in truth, you don't know what to think about yourself... You just wanted for things to go back, to back in time and find a place where you were happy, the sun was high in the sky, everything was so bright, joyous and full of smiles. And that thought gets fixed in your head, it keeps you locked in the past. You are priosioner number 4. That is your punishment, to remember your past and to know that you won't have it back.

Here you are, in this dark and putrid hole, with the smell of shit. You feel the weight of the shackles on your wrists. You ask for forgiveness, you ask for mercy, for whatever you have done... Uncalled. Then the pain goes so bigger that you ask to the Gods for a quick death, please just let me go back to my childhood for a day and then let me go... And still, you wake up the next morning exactly where you were. It comes times when you get angry and the spirit of the lord of destruction takes over you, know you are on your knees, with your heart bleeding and you ask for justice, for final and eternal justice, you don't care about anything else. Nothing else matters in that moment. And still, your sacro-saintic experience keeps you alive. With time your mind ease....

With time you hear your demons and you recognize their voices, to whom should you listen to? Time will only tell whose voice is yours trully. And time goes and you still can't find a reason to smile, why should you in this dark hole, where the sun never shines and only hysterical screams of pain surround you?

But it happens... I can not tell you when, my friend, but it happens... When day you will wake up and you will feel it in your heart that you are in peace with your demons. Your scars, still open have stopped bleeding and you realize that the schakles that kept you imprisioned never existed, you created them.

Now, there is only one way.... up! Now after you have cried, pissed and suffered more than everyone around you, now you can rise from your shadow. The path is yours and fear nothing!

Now you have the shield of steel and the spear of bones, your shinning armor has been earned. There, for a single moment, so quick that you can't really feel it in your soul... You know that faith put you there for a reason. Only a man that called for his death, that felt such a sharp blade spear his heart and left there to be twisted when Devil himself wanted, only a man that cries for it to be over with all his spirit can raise above everyone else.

Now you can't hurt me anymore, now there is no fast-lane for your existence, now comes the great rise... I tell you my friend, that it is a dangerous thing to put a man crying on his knees, if you do it kill it there... otherwise it will backlash it such a strength that you will regret your sins.

So my friend, if you are feeling in your darkest hours, don't despair, accept it knowing that one day, one day you will rise and the greater your fall was, the greater your rise will be. Remember, that it is always darkest just before the dawn and when the sun shines, it shines for everybody. Don't keep anger in your heart, fuel it to whatever you want to be in this life and listen to no one, your demons are your greatest allies and now you will know to listen to them.

Welcome the change and be fool enough to embrace the fall, because only you have lost everything is that you are free to be whatever you want to be. And lastly, be wise and learn with the time passed in the dark pit: now your pain is your strength.

Rise!

Thursday, March 28, 2013

Desfragmentação do Amor


O que é viver?
Quando fomos ensinados a viver? O que é viver senão a procura incessante de saber o que é amar?

Mas de novo, onde é que fomos ensinados a amar? Perguntas formuladas pelo advento da humanidade e para as quais ainda hoje não conseguimos alcançar uma resposta satisfatória. Mas amar, amar tem outro sentido quando sabemos que somos amados e que amamos. O que é nascer? Como é que fomos programados para saber aquilo que é nascer, se nem sabemos aquilo que é viver. Talvez seja amar... Amar profundamente, uma bela mulher, amar é ter a esperança de ver o raiar da aurora por mais uma manhã, no sorriso dela, nos olhos que em si têm todo o universo, no cheiro do pescoço dela em longa noites de paixão. Todas as galáxias e vias-lácteas...

Na compreensão extra-sensorial que somos todos um, a parte mais elementar do universo não é mais do que um turbilhão de esperanças e memórias perpetuadas pelo infinito desejo. Alguma vez fomos ensinados a desejar, a querer percorrer tanto a pele de um corpo, como se a nossa própria vida dependesse disso, ou a sentir a leve fragrância de perfume  de mulher a encher o espaço entre nós e ela, na face daquilo que amamos.

E em nós temos toda essa capacidade de amar, de sentir e de viver. Mas será viver mais do que amar? Na esperança de que um dia não iremos morrer, que não vejamos tudo a degradar-se lentamente perante o nosso olhar perdido. Tal como a natureza sempre o faz, o ciclo rítmico da vida. Amar é como viver, senão for viver. Tudo está num estado de permanente fluxo, de permanente nascimento e morte, de crescimento e de decrepitação. Qual é o sentido de tudo isso?

A resposta em si, mais uma vez, provêm de uma base de pouco valor, porque amar não é procurar respostas, mas sim a intriga de não saber, do grande e enorme desconhecido que está aí ao virar da esquina. Tal como as flores na beleza da primavera abrem e meses seguintes morrem, também o amor é fruto desta natureza cruel e quase trágica, senão fosse uma necessidade ulterior da nossa existência.


Um dia ataca-nos com a força da chuva fria, implacável e expectante... E só nos resta correr, correr até os pulmões doerem, e talvez sobre uma ponta cruzada sobre o Sena, corrermos atrás da nossa amante parisiense, nada mais do que o amor, a nossa própria razão de viver, de acordar e sorrir, do brilho e entusiasmo que temos na vida. E quando a alcançamos os lábios encostam-se, as mãos apertam o corpo do outro e os braços envolvem todo o universo, tudo aquilo palpável e real. E aí, nesse mesmo instante que o sorriso se acaba de formar nos nossos lábios vemos que corríamos atrás de nós próprios e estamos agora sozinhos à chuva numa ponte parisiense.

Tal como a própria flor, também o amor morre e nós com ele. Mas por pouco tempo... Porque o universo, o nosso universo nos diz que se o mundo é uma projecção daquilo que somos, e pensamos, então todo o amor do mundo está dentro de nós, e o que são então os outros?

Os outros eu não sei... mas sei que se o mundo é uma projecção daquilo que sou, então o meu mundo é um Jardim do Éden, intocado, tão fresco como os próprios cabelos de uma mulher que lhe descem pelas costas e iluminam as margens, como um rio dá vida a todo um sistema... de constante fluxo e mudança e nessa frenética aventura, há tudo aquilo que a vida deve ser. Desprovida de significado, apenas feita para viver e em breve.... Mas fruto de Amor, porque essa é a fonte damos uns aos outros. É tudo aquilo que queremos receber, e quem não o recebe vive o perigo de tornar-se numa besta de presas afiadas e sedenta por sangue.

Mas não é isso que nós somos... A cadência fluente das teclas de um piano, os riscos no ar das cordas de um violino, num quarto despido, de paredes brancas e a cheirar a mofo descobrimos quem somos. Seremos mais do que nossa capacidade de amar, de perdoar e de não saber? Eu sou um escritor, um poeta, um viajante do tempo que se ilumina pelo sol que nasce no peito e por cima das colinas mais perfeitas do universo que me ilumina, e me faz sorrir e viver.

E nessa tentativa falhada de fazer da vida, do amor e da degustação de prazeres, uma nobre arte... apenas sorrio, numa nuvem que se ergue no céu e é tão clara para o melro, de corpo negro e bico amarelo, como para as rochas do oceano ou para as folhas das árvores.Não temas porque não estás sozinho, tal como uma onda não está separada de todo o oceano, tu também não estás separado do que é amar, viver e em dias amargurados de sonhar.

Resta-te amar como se nunca tivesses amado, de viver como se fosse o primeiro dia em que abris-te os olhos, de repetir e repetir até tornares a tua vida, o teu amor, a tua incompreensão e fascínio pelo desconhecido a tua obra de arte, a tua tela, em que pintas nua, uma bela mulher, com longos cabelos escuros e nos olhos dela, vês-te a ti numa viagem que irá durar para a eternidade. Nos olhos dela estás tu, multiplicado pelo amor que só uma bela mulher te pode dar.
~João Fernandes

Tuesday, February 12, 2013

Profundidade sobre distância

Vamos na procura da beleza, caminhamos de mãos dadas num campo de erva alta e flores amarelas. O sol brilha no céu, ilumina o espaço à nossa volta. O verde, tudo é verde, como se as cores nos dessem a paz de espírito que procuramos. Eu sinto o teu sangue nas minhas mãos, o calor do teu corpo. À nossa frente está um velho carvalho, no final da orla da erva alta e na matança do amarelo. Lá está fresco, vamos para lá. Tu pousas a tua cabeça nas minhas pernas e olhas para mim. Como és bonita. E eu a pensar em todas as maldades que te fiz, em todos os momentos que não te fui leal, porque a vida é assim, arrependo-me e escondo todas estas cicatrizes com um sorriso para ti, porque és realmente bela. Roubas uma flora amarela do jardim do paraíso e coloca-la no cabelo. "Assim pareço uma princesa!" dizes numa energia que faz lembrar a das crianças quando o pai as levar a passear e tudo é novo e mágico. Tu és assim, para ti, tudo à tua volta é novo e mágico. É uma energia contagiante, que às vezes me faz explodir por falta de espaço. Sou absorvido por ti e às vezes só quero ser eu, estar sozinho no meu canto a olhar para o céu. Mas hoje estou contigo e é contigo que quero estar.

Como gostariamos de permanecer aqui, assim, tal como estamos. A brisa do vento é fresca, passas-me a mão no cabelo e puxas-me para ti, para te beijar, para sentir os teus lábios e para o universo paralelo para que sou transportado cada vez que fecho os olhos. O que há quando isso acontece? Nada, o estado zero de consciência em que nada mais existe há nossa volta. Só eu e tu. Ficamos deitados cada um para seu lado, com a cabeça pousada nas pernas do outro. Como gosto da tua pele, de a sentir com a ponta dos meus dedos. É cuidada, suave, branca como as próprias nuvens do céu. Beijo-as, um atrás do outro, começo a beijar-te freneticamente todas as tuas pernas, levanto-me de um pulo e deito-me em cima de ti cobrindo todo o teu corpo com beijos. Tu ris. É bom ouvir o teu riso, é como a fonte de água fresca, alegra-me. Abraço-te e faço-te rebolar para que os nossos peitos se encontrem e agora sou eu a olhar para cima, vejo-te a ti, ao céu, ao grande plano das coisas. Sorrimos estupidamente.

Somos novos, com toda a nossa vida para sempre e mesmo assim fazemos juras de aqui ficar para sempre, num jardim do Éden petrificado. Seria bom, não seria? Nem precisávamos de falar. Mas eu sei que não, tu sabes que não, isso ira-nos destruir e nessa destruição também o céu e o campo de erva verde se iria transformar num revoltoso mar de ressentimentos. Claro que isso não é possível, mas neste momento com os olhos turvados de perfeição, tudo é e será sempre assim. Não pensamos no futuro, apenas nos escondemos na erva alta, um do outro, e apanhamos o outro desprevenido. Um abraço apertado, um ataque de cócegas ou eu pego-te ao colo e atiro-nos os dois ao chão. Rimos como parvos, que somos e sabemos. Mas para quê ser diferente. Somos crianças de novo, com sentimentos de adulto e gente grande. Olhamos para os olhos do outro e sabemos que somos um, apesar de estarem lá dois corpos.

Adormeço contigo nos braços. Fecho os olhos neste oceano de tudo aquilo que é bom. Acordo, tu já lá não estás, não me disses-te para onde ias, apenas deixas-te a flor amarela que prendes-te no cabelo ao meu lado. Olho há volta e confuso pergunto-me: Onde foste? Depois esqueço-me se tudo foi um sonho ou existes mesmo, talvez tenha sonhado com um mundo perfeito... espera, o coração doi e nos sonhos o coração não sente. Tu estás algures e eu procuro-te.

Monday, September 03, 2012

Pleistoceno

O vácuo levou tudo, a existencia limita-se a momentos perdidos olhando para paredes brancas, fazendo delas telas de veludo, onde pinto a vida de qualquer forma que me aprouver.

A vida não é cor de rosa, e lentamente, com o passar dos anos, o lado negro da vida apodera-se da perfeição, que um dia se julgou haver. Tudo cai como um baralho de cartas debaixo dos pés, em camara lenta, uma por uma até os pés voltarem a tocar o chão. Ali fico deitado, de costas no chão e os olhos fixados no tecto. Tudo podia ser pior, mas em que vida se pode dar significado há existência que se está a viver? Será que existe sequer significado?

E o afastamento de tudo o que conheces processa-se e dá para ver, que nada é perfeito. Será que algum dia foi? Era mesmo, ou era apenas a visão que era diferente? É o tempo de deixar para trás tudo aquilo que um dia teve significado, cortar o cordão umbilical com a lâmina de fogo, que sempre cortou a vida nos momentos importantes, não menos traumáticos, mas importantes.

Será que é verdade? Será, ou é apenas a minha visão que está desfocada? Nunca se pode saber nada, para quê? Para que serve saber?

Thursday, May 10, 2012

Verdades

Irmãos, na verdade, virtude e na certeza de nada ser. Criados segundo protótipos sociais, cada um encaminhando aquilo que mais quer ser, mas que talvez um dia nunca irá ser. Sonhos, tudo sonhos... vivemos dos sonhos, acreditamos nos sonhos e na verdade somos movidos por nada mais do que a vontade de tornar esses sonhos em realidade.

Isso é o que há, pouco mais ou mesmo nada. Acreditar naquilo em que deve ser acredito. Beleza. Verdade. As principais matrizes da vida. O sangue que te corre, não te pertence, mas sim a homens do passado, homens a quem deves tudo aquilo que hoje tens. Verdadeira força, coragem e determinação. Tempos ido, indiscutivelmente mais difíceis que este, aquele em que vivemos, em que a dificuldade, na verdade não é mais do que uma facilidade. Apenas difícil... porque não estamos habituados a nada. Verdade difícil de engolir, contudo a maior de todas elas....

Thursday, April 19, 2012

Mecanização Pensante

Parado no isolamento, no pior de todos: entre paredes e com pessoas à volta. Sonho acordado com as nuvens que corriam o céu de planicies amarelas, ondulantes e o cheiro a óleo de engrenagem e rodas motrizes de comboios. Eterno descontentamento, plenitude de conhecimento.

O conhecimento não é do teu interesse. O que vais fazer com todo esse conhecimento que tens que saber? Serve-te de algo? Em dezenas de anos aprende-se tudo aquilo que é necessário para ter um emprego, contudo nada daquilo que se aprende prepara alguém para a vida. O conhecimento não é do teu interesse...

Cercado pela clausura da eterna pergunta: "O que mais há para além disto?" Principalmente quando "isto" é tão pouco... Descoberta de novos mundos, novas realidades, novos seios em que a cabeça possa repousar depois de um dia em que nada ficou por fazer. Sair de um dia com graça, sem deixar rasto a não ser o da memória da presença que criamos.

A que é que renuncio? O que é que acolho como fortificação do espírito?

Perseguir o mistério que há na vida, criar este mistério...

Sunday, January 22, 2012

Paredes riscadas, escrito na estrada aberta

Talvez demasiado cansado para escrever. Mas hoje é a última noite.

A máquina de lavar não para de trabalhar. A rapariga que aqui trabalha vai estendendo os lençois no corrimão do corredor, dá para o andar de baixo. A garrafa de água está fazia, as pernas demasiado moídas para ir buscar mais. Sozinho amanhã parto para outra cidade. Estadia final, contar dias, semanas, calças e camisolas: embrulha-las na mala quase vazia. Solidão de sala de convívio de um hostel vazio. Paredes vermelhas e amarelas, tem uma serpente pintada. Única companhia num domingo.

Quando se viaja está-se longe e perto de tudo. Acredito cada vez mais, que aqueles que não viajam, acabam por não conhecer o mundo. Pensam que sim. Mas na verdade não. Sinto principalmente, que não se sabe nada de viajar... até se ter viajado sozinho por um certo período de tempo. Acordar numa terra distante, em que não conhecemos ninguém. Acordar e termos mais 5 pessoas no mesmo quarto. Uma vez na vida temos que nos encontrar numa situação que nos coloque tão longe, tão sozinhos que saibamos que em nada mais podemos confiar. Não amigos. Não família. Nada... a derradeira etapa de crescimento, a caminhada sagrada. Quem nunca viveu sozinho: não se conhece.

Quando estamos por nossa conta, tudo ganha mais significado e curiosamente: mais arriscamos; mais alto voamos.

Um amigo meu disse que apenas três coisas poderão ensinar a um homem tudo aquilo que ele precisa de saber na vida: viver sozinho; viajar; & encontrar uma mulher verdadeira. Nada traz mais um homem à sua condição mais primitiva do que essas três experiências. Nada o poderá ensinar mais.

Aqui caiem os preconceitos, cai a visão que nos impõe do mundo. Perigo! Com certeza que não conhecem muito do maravilhoso mundo em que vivemos. O simples conceito de partilhar um quarto com o número de dedos da palma da mão desafia tudo: contam-se histórias; partilham-se frustrações e medos; por vezes ouvimos o outro a chorar e no dia a seguir contam-se piadas, piadas que se conta apenas a amigos de anos. E somos desconhecidos, por vezes nem o nome sabemos um do outro, mas isso não importa...

Viver no vento! Nesse lugar mágico aprendes tudo aquilo que precisas. Sonhas em encontrar na estrada uma mulher de verdade, se já conheces-te uma, então esperas pelo dia de a voltar a encontrar, ou fragmentos dela nos kilometros percorridos.

A essência de um homem vem das experiências que este viveu, mais depressa confio num desconhecido com quem partilho a mesa do que em alguém que nunca viveu fora do seu ambiente. Todos os viajantes sabem daquilo que falo. E quando me perguntam se sou um turista, a resposta é sempre a mesma: "Não, não sou um turista. Os turistas esperam pelo dia para voltar a casa... eu não sei para onde vou!"

Sunday, January 08, 2012

A confusão masculina em torno do desejo sexual

(...) Aos homens para além de reprimir o seu lado sexual, também os torna menos masculinos, porque não é isso que a sociedade quer. No processo de crescimento os homens aprendem que não podem ser agressivos, mal-educados, inconvenientes, rudes e principalmente fazer algo que desagrade uma mulher. Aqui entra em jogo a parte em que somos homens criados por mulheres, sem nenhuma referência masculina na nossa vida que nos faça trazer ao de cima o nosso verdadeiro lado orgulhoso em ser quem é. Daqui vem a grande confusão que há entre os homens: o que é que as mulheres querem? O que é que devo de fazer para agradar a uma mulher? O que é que a sociedade espera de mim em todas as áreas da minha vida? Deixamos de saber quem somos, deixamos de ter a energia e força necessária para cravar a nossa espada no chão e reclamar o nosso território.


Mas cedo percebemos que algo de errado há na história que nos foi contada: somos simpáticos, atenciosos, respeitadores e românticos. Tudo aquilo que nos foi dito para ser, tudo aquilo que nos fizeram acreditar que é o que as mulheres querem. Mas existe uma diferença entre a teoria e a realidade: esta nossa maneira de ser não nos leva a lado nenhum, queremos namorar com determinada rapariga e somos colocados na “zona de amizade”, somos simpáticos nas nossas relações com todas as pessoas e algo dentro de nós começa a ganhar rancor à sociedade: o facto de não podermos desagradar as pessoas não nos deixa ser livres para fazermos aquilo que queremos!


Mas a maior repressão que a sociedade faz ao espírito do homem é a repressão do seu lado sexual. Expressar o seu desejo sexual por uma mulher é um sinal automático de falta de respeito. Deixamos de ser respeitadores e com certeza que as mulheres não gostam disso! E elas demonstram isso perfeitamente, até quando somos simpáticos elas demonstram desagrado. Mas o que não compreendemos é que as mulheres são criaturas sexuais que querem ser celebradas na sua beleza e sexualidade! Mas nunca ninguém nos disse isso, nunca ninguém nos disse que deveríamos de tornar as outras pessoas desconfortáveis, se isso fosse o resultado de falarmos a nossa verdade. Fomos ensinados a reprimir tudo aquilo que nos torna atraentes, ensinados em não saber quem somos e o que queremos.

É necessário fazer menos, tirar camadas sociais, simplificar e retomar às origens!

João Fernandes

~Sedução Genuína~

Thursday, May 26, 2011

Portas fechadas

Por momentos gritantes de amargura pensei que não estivesse a sonhar, felizmente estava... Continuavas a descansar a meu lado, de costas viradas e eu não te conseguia abraçar, moralmente sentia que não podia. Ali estava e apenas queria fumar um cigarro, para ver se acalmava o pesadelo de estar acordado. Abri a porta vidrada que dava para a varanda, sentei-me numa das duas velhas cadeiras de baloiço e acendi o cigarro. Como podia eu ter conseguido fazer-te o que fiz, como deixei que a minha vida fosse consumida como a cinza deste cigarro? Procurava a resposta com a cabeça mergulhada nas duas mãos, com a ponta do cigarro a queimar... pendente na minha boca. Sabia que a culpa não era minha, mas fui eu quem te deixou estar como estás. Tu mereces melhor... Sentia-me anedótico em todo o sofrimento que sentia, queria dormir, voltar a sonhar. O problema era o terror de voltar a acordar e ter que te enfrentar pela manhã, sorridente, bela como só tu o sabes ser e disposta a lavares-me de novo a alma na tua paixão. E é isso que me mata, o facto de deixares tanto em ti por mim... quando eu não o mereço, quando nem sequer sabes quem sou.

Sem saberes matas-me os dias, o ser, a alma... porque por muito que ame, não posso estar contigo, estar à tua beira, no mesmo espaço. Sinto a alma a ser arrancada da carne quando me beijas. Tenho que voltar para dentro e partir, longe, um sítio em que jamais me possas descobrir, uma torre de marfim incansável. Tu não o mereces, nem eu... nenhum de nós merecia, mas foi isto que escolhemos. Escolhemos como destino, como supremo fado nas mãos de um deus ex machina. Diz-me quem somos, porque eu desconheço, como serás realmente, sem mim... feliz como uma criança a viver a vida dos teus sonhos, sem mim... porque os meus sonhos não podem ser partilhados, é muito fácil desistir de tudo pelos sonhos. Não por aqueles que vemos durante o dia, mas por aqueles que vivemos quando dormimos, quando eu dormia ao teu lado e que belo que era sonhar, com tudo.

Deitava-me tarde, muito depois de ti, na mesma cama, não por não querer sentir o teu corpo, mas porque tinha medo dos meus sonhos, daquilo que via e chamava pela alma selvagem. Foi isso que me fez partir. Peguei numa pena, molhei-a em tinta negra e escrevi na parede:

"Talvez noutra vida... talvez noutro espaço, haja duas pessoas tal como nós, apaixonadas como nós que podem viver a vida como querem. Mas não aqui, não... não por ti, mas sim por mim. Porque eu mergulhei demasiado fundo no mar dos sonhos, porque estou viciado naquilo que crio... matas-me! Carinhosamente, mas é o que fazes. Sempre que me amas deixas em mim, tudo aquilo que és e eu não posso receber tudo isso, não posso pegar nos pedaços que me deixas e fazer de ti uma pessoa, que não sei quem é, pois sempre a conheci a viver por uma pessoa que a enganou... eu. Não com outras mulheres, não com outros pensamentos, mas com a vontade de partir, com a vontade de estar contigo apenas porque sabia o que me darias, darias-me... tu! A mulher que agora repousa, já não existe. Não pode existir, porque perdeu-se num homem que é incapaz de amar, de viver e apenas de sonhar. Perdi-te quando te conquistei. Devolvo-te agora a vida ao abandonar tudo aquilo que me dês-te. Ao deixar-te ser... livre! Pois daqui em diante eu morrerei, não me voltarás a ver, porque eu também deixo de existir...

Talvez numa outra vida, em que não fossemos fantasmas um do outro...."

Nesse momento tudo fez sentido, finalmente percebia... que eu não era Deus decidindo a vida de outra pessoa, eu era essa pessoa... no fim, tu nunca tinhas existido e estava a sonhar, sozinho, deitado na cama numa noite quente de final de Verão. Tudo nunca havias existido para além de mim, tudo isto era eu... fantasma de próprio da vida.

Monday, April 18, 2011

Tápies

Há uma certa virtude em tudo o que você faz na vida... isto não sou eu escrevendo é claro, porque se fosse eu, eu não escrevia... eu declamava, recitava poemas dos grandes mestres... mas isso, não é mais verdade. Acordas para o dia quando este já vai tão alto, que parece estar a baixar, parece que vai cair na sonolência desse incrível limbo da gravidade. Vêm daí, vêm conhecer os grandes quando te enterras em páginas de 4 andares, sozinho não ouves muito mais para além do teu próprio coração e de páginas a serem viradas a cada momento, como se essa fosse a última página de um livro, só que nunca é, porque não pode ser. Quando for estamos perdidos, porque esse livro chama-se vida e essa é... o que quisermos que ela seja.

Milhares de pontos fraccionarios percorrem o céu, eu não deveria de estar aqui, mas essa é uma realidade que me é um pouco difícil discutir, porque me parece ser a realidade, senão o é... então vou-me ejectar do assento em que estou... vou voar como uma gaivota, livre sobre todos.

Thursday, March 24, 2011

Tudo termina onde começa

Sabe do que está a precisar? De parar, pare durante um momento. Não muito, apenas um pouco mais que um minuto e não mais que um minuto e meio. Está a sentir isso? É a vida a passar por si, é a mudança e você o único ser parado no meio de três biliões de humanos e não sei quantos quadriliões de organismos vivos. Deixe de respirar, uns dez segundos chegam para se sentir completamente estático na vida. Talvez fosse disso que estava a precisar... Está a precisar de parar de correr para todo o lado, não é por perder um autocarro ou aquela aula que o céu lhe vai cair em cima da cabeça. Está a precisar de começar a correr... para fazer aquilo que quer, mesmo que não tenha nada do que precise, comece a correr e sempre que possa agarre aquela saía à sua frente, pode ser a sua porta de escape. Quem sabe... mas, muito provavelmente não será. Andamos ao contrário, corremos para aquilo que sempre estará parado para nós, e estamos parados perante aquilo que nos foge...

A vida é fudida, principalmente quando não conseguimos expressar aquilo que pensamos, uma prisão assustadora. Pare de pensar, porque provavelmente nunca irá precisar daquilo em que está a pensar, na altura nao lhe irá ocorrer nada... deixe de pensar e inale uma grande quantidade de fumo. É, é isso mesmo... é uma autêntica merda, mas ao menos assim estará preparado para quando lhe pregarem uma rasteira e rasgar a pele sobre a sua carne. Não é bonito, mas poderia ser pior, não concorda?

Sim, foi uma espécie de metáfora para a vida, tenho pena de não ter arranjado nada melhor.

Esperem aí, vou só ali ao inferno tomar uma bica com o cabrão e já venho...

Tuesday, March 22, 2011

Inté

Vou escrever muito simples. Como se estivesse a escrever pela primeira vez, frases simples de um só verbo, um sujeito e talvez um complemento predicativo de alguma coisa, que mais tarde me lembre,,,,, poucas virgulas. Ponto final quando necessário. Nenhum ponto de exclamação? E muito menos de interrogação! Não quero reticências.... e sinceramente não percebo o ponto e virgula; ora, ou é uma coisa ou é outra, já alguma vez firam uma: virgula de interrogação? Que aspecto teria uma coisa dessas, é melhor não imaginar...

Letargicamente vou-me arrastando, o quê? Letargicamente é uma palavra complicada?... vou-me arrastando, deslizando pelo mundo que é tão redondo que dá vontade de escorregar por ele abaixo e brincar aos berlindes com ele. Dá vontade de engarrafar o mundo, tal como se engarrafam barcos, que magicamente ficam dentro de uma garrafa... O mundo em versão garrafa. Haveria para todos os gostos, mundo com gás, mundo light para os saudáveis, mundo com corantes e mundo de marca branca. Tudo isso na prateleira de super-mercado mais próxima de si.

Como seria criar constelações e vias lácteas? Constelações deve de ser como jogar aquele jogo, que se faz na primária, ou então, em qualquer livro de entretém para crianças. Aquela coisa de ligar os pontos e ver que desenho vai sair de lá. Agora a via láctea? Nem me vou dar ao trabalho de responder como foi isso criado, parece demasiado evidente.

Estou cansado, vou voar, vou adormecer a conduzir... parece ser uma experiência engraçada, vamos lá ver no que resulta...

Tuesday, March 15, 2011

Divagações, machos e sexo

Não gosto de adivinhas, muito menos do tom paternalista e sabichão que os mais velhos nos interrogam sobre a cor de um cavalo de um tipo com um metro e meio... Acho que quem faz adivinhas tem um complexo de inferioridade qualquer, não são pessoas muito inteligentes porque pessoas inteligentes não nos perguntam, com um olhar espertalhão de quem nos vai puxar o banco no momento em que nos vamos sentar. Quem é que no seu perfeito juízo, olha para nós e com voz baixinha, estilo segredo nos faz a perguntar mais ridícula da história? Qual é a coisa, qual é ela amarela e com bigodes?

Ora pois claro senhor Eugénio, é o gato do 3º esquerdo... como é que nunca me lembrei disso? Realmente que tolinho que sou, mas diga-me uma coisa sôr 'Génio, qual é a coisa, qual é ela que grita muito alto e você conhece?... Ora, não sabe?... Não mesmo? É a sua filha a masturbar-se com a fotografia do Papa à frente. Uma "santa" de uma rapariga.

Por falar em masturbação... todos nós a fazemos, certo? Então porque é que nunca falamos disso? Não seria vida infinitamente mais divertida se respondêssemos a uma daquelas perguntas, que até quem interroga não está interessado: "Então que fizeste ontem à noite?"; "Olha jantei com o pessoal do trabalho, fui para casa e vi um filme horrível... o pah juro aquilo era mesmo muito mau. E antes de ir dormir masturbei-me". "Fixe, fixe.... aaaah?"

E até as próprias raparigas, que falam com grande repugnância disso quando um gajo diz que bate uma de vez em quando e elas fazem aquela cara, do tipo: não percebo porque fazem isso, qual é a piada? Que acaba por terminar sempre, com um canto do lábio superior retorcido para cima. Claro, como se também não o fizessem... Aliás, para vermos ao ponto a que isto vai há certas miúdas que na sua loucura põem coisas muito estranhas lá dentro e claro a vossa mãe sabe do senhor azul de borracha que vocês têm na gaveta das tanguinhas. Sim, sabe... só não diz porque quem admite faze-lo é uma grande "desenvergonhada". O que na minha lógica, ser-se desenvergonhado é bom, visto que eu nunca conheci um tímido a chegar longe na vida...

Mas não seria muito mais divertido, se todos fossemos mais honestos com aquilo que fazemos? "Olha amiga, eu já venho... estou com uma grande vontade de me masturbar. 5 minutos e já volto". E no processo a amiga tomava o seu carioquinha de limão como se nada se tivesse passado.

Sim, eu sei, eu divago muito. Mas eu também sou apologista da honestidade nos limites... Claro que sou e todos os homens o são, só que não dizem... Qual seria o problema de um homem dizer a uma rapariga: "Olá, eu estava ali e reparei em ti e tenho que admitir que adoraria fazer sexo contigo na casa-de-banho deste shopping, que me dizes?" Nenhum! Mas provavelmente a señorita a seguir iria para o inferno o que seria muito desagradável. Aaah, também me esqueci de um facto que não me devia de esquecer, as mulheres não gostam de sexo, odeiam! A sério, é verdade... perguntem a uma das vossas amigas e vejam o que ela diz: "Gostas de fazer sexo?". Resposta provável: Qual é o animal, qual é ele que não entende o ser feminino, nem faz por o entender?

Saturday, February 26, 2011

Memoria Conditor

Descansamos o corpo, sob o céu negro de estrelas cadentes, sabendo que o dia de hoje não voltará a ser o mesmo. Jamais. Uno. Indivisível. Implacavelmente morto no espaço uniforme de 24 horas e não mais um minuto, e assim pousamos a cabeça na almofada. Tudo numa certeza de adormecimento breve, em torpor afflicta, sem saber onde se caminha, como e em que caminho nos levam os pés no vazio escuro da decadência do consciente.

Somos induzidos numa soma tranquilizante, bem ao jeito de Huxley. Perdidos no mundo tão surreal em que os desejos se sentem na flor da pele, nesse mesmo momento em que os pêlos dos braços se eriçam ao sentirem um beijo frio da partida do sonho. É-se levado, por Milton até ao seu Paraíso Perdido onde podemos ser tudo o que quisermos. Sem limitações, liberdade criativa e processual total. Mas tudo... tudo no escuro do ser, embrenhado na categoria de creator mundis, senhor de uma luta incrível do elemento do ser contra o negro desse mesmo senhor.

Friday, February 25, 2011

Coisas do tempo fugido

Vou escrever sobre o que me apetecer:

Sabem sobre o que é que os escritores escrevem? Não, eles não escrevem sobre aquilo que lhes apetece, normalmente é sobre coisas aborrecidas, que nem a eles lhes interessa. Inventam histórias fantásticas, para um público que se faz de exigente, mas no fundo papa tudo aquilo que lhes dão à boca. Um escritor, é um pintor de caneta na mão que escreve sempre o mesmo de formas disfarçadas de nomes diferentes de personagens. Simples e eficaz. Ninguém repara, ninguém se queixa e no fim o escritor ainda recebe. Todos felizes.

Um escritor por norma é mais miserável do que a maioria das pessoas, mas é na sua miséria que se torna superior, mas isso só lhe doí mais. Normalmente, é mais pálido do que a maioria, porque não saí de casa. Os dentes amarelos do tabaco e com barriga a pousar nas pernas quando se senta para escrever. Alguns penteiam-se, outros não, a maioria já não tem cabelo. É dificil conhecer um escritor que queira saber de mais alguém para além de quem vê ao espelho quando se barbeia. Eu disse que são pálidos? São, porque não saem de casa e mesmo assim escrevem sobre a realidade à sua volta. Irónico e brilhante ao mesmo tempo.

Hoje escrevo isto, porque não me apetece escrever sobre mais nada, apetece-me gozar com o próprio facto de eu escrever. Contudo, já não escrevo grande coisa, talvez porque não passo tempo em caso, não sou pálido e tenho os dentes impecavelmente brancos...

Whatever... fuck the Queen and save the Virgins Mary's, not the Virgin Mary but all girl named Mary who are virgins...

Sunday, January 09, 2011

Engano de mentira

Ao olhar para os livros, percebo que estes não dão a verdade. Apenas são parte dela.

Colocamos questões à vida e esperamos por uma resposta, porque na essência somos incapazes de atingir a resposta. Apenas questionamos até possuirmos a verdade e no seu paradoxo sabemos que nunca a teremos. É uma tarefa de vida, para a qual nunca teremos conhecimentos total, porque somos feitos da mesma matéria orgânica que tudo o que é perecível.

Alguns de nós morrerão sem saber amar uma mulher, sem nunca ter lido um livro, sem nunca conhecerem quem são... outros irão amar um mulher e irão ter lido livros, mas jamais irão perguntar à vida pela verdade. A única detentora da verdade. Talvez a consigamos encontrar em locais remotos e afastados do mundo, escrevemos o nosso nome na pedra branca da cidadela e se essa for a sua vontade, quando lá voltarmos lá estará.

A verdade surge em momentos estranhos, irónicos por natureza e que nos fazem sorrir. Talvez a nossa morte anunciada seja a bênção que nos faz viver. Talvez um estranho numa viagem de autocarro seja a melhor amiga durante um dia, ou que um estranho a quem pedimos indicações nos olhe como um filho perdido. Se a verdade só pode ser a morte, então há momentos em que morremos e voltamos à vida só para sentir instantes de realidade.

Para perceber a vida é necessário colocar questões. Para perceber metáforas encobertas num texto é necessário perguntar o significado destas, só então compreendemos. Só então vivemos...

Saturday, December 04, 2010

A conduzir coincidências paradas

Está quieto e vai dormir, tens uma mulher bela à tua espera na cama. São 9 menos um quarto de um sábado e ainda não pregas-te olho desde o meio-dia da sexta-feira preguiçosa, vivida tranquilamente. Está bem, mas deixa-me só acabar este texto e depois vou dormir...

Diálogo interno, que se repete e me aborrece quando a tranquilidade se instala. Não interessa, não interessa mesmo serem 9 da manhã de um sábado e ainda estar acordado, porque hoje sigo as palavras de Byron, hoje não morro mais. Fumo mais um cigarro e mais uma golada na garrafa de whisky que já passa de meio, cria-se algo e mata-se as células nervosas do pensamento, porque esta é a ordem natural da existência. Tal como é o amor entre irmãos que afinal são amigos e entre amigos que afinal são irmãos. Escuta-se atentamente o nascer do sol, cheira-se os raios que incendeiam o céu negro, vê-se a ordem rotineira e matutina do vaivém espacial de passageiros em todas as direcções quanto possam ser transportados, quantas mais houvessem mais perdidos neste mundo tentariam encontrar o seu caminho numa valeta escondida que é esse transporte de alma atroz e penitêncioso quando só apetece é morrer de overdose: tão rápida e dorida como a vida.

Escrevo, porque o amo fazer, é a maior projecção mental dos pensamentos, uma trip de ácidos descarregados em simultâneo. É a última coisa que se poderia fazer, mas é o que faço, porque sinceramente há algo de superior aos esquesitismos apontados e consagrados. Esta é a linha de corte entre a igualdade podre e a verdade dormente. A barriga tem fome, o corpo tem fome, a mente tem fome... de pensamento, de prazer, de carne, de beleza, de conhecimento & de verdade. Cito Thoreau, London... e sou eu, e somos nós todos deste mundo.

Vivam bem!, enquanto eu vou fumar o tabaco dos imortais e já volto...

Sunday, November 07, 2010

Incompleto

Vidas...
O limbo permanente entre a decisão, porque no fundo é isso mesmo que a vida é, um conjunto de decisões que aprendemos a viver. Vivemos todos numa desgraça com muito de vitima, em que gostamos de acreditar que não detemos qualquer poder sobre o destino. Somos as peças de xadrez, as primeiras a caír, os peões que nunca decidem nada. Acordamos adormecidos, vivemos adormecidos, voltamos a adormecer adormecidos. Há sorrisos que se trocam, há outros que apenas visualizamos e que gostariamos de ter a coragem de os exprimir. Porque somos reprimidos, embora gostemos de pensar que somos livres. Ahh, grande Goethe, o verdadeiro erudito que afirmou que os maiores escravos são aqueles que acreditam que são livres. Livres? Como se essa palavra existisse de alguma forma no tempo, no espaço, na realidade...

Todos os dias são uma recriação fantástica da obra de Sam Mendes, todos os dias são uma beleza americana. Todos os dias as mulheres sentem-se reprimidas no casamento que vivem e querem ter um pouco de aventura, todos os dias o ponto alto dos homens é quando no banho se masturbam e de seguida respiram bem fundo para viverem mais um dia no inferno, todos os dias os adolescentes são apanhados numa rede à qual lhes escapa o controlo e vivem a boiar num mar demasiado agitado para eles. Todos os dias, todos os dias, todos os dias...

Prometemos fazer coisas novas, caímos na ilusão de que daqui a 2 anos é que vamos viajar, que daqui a 1 ano começamos a ter uma vida melhor. Promessas vãs, como o fumo de uma jarra de incenso que se balança no ar...

Wednesday, October 27, 2010

Donum Ira

Há um determinado sentido de controlo quando nos encontramos fechados dentro da nossa cabeça, trancados nos nossos pensamentos, que deambulam pela mente como fumo de cigarro pelo ar numa noite fria de inícios de primavera. Hemmingway escreveu que um escritor não se senta à frente de uma máquina e escreve, um escritor pega numa caneta e sangra. Um pensador nem sequer produz algo, apenas sangra até ficar seco como um cadáver sentado na sua poltrona enquanto devora whisky e fuma cachimbo. Curiosamente há mais vida nisso, do que propriamente em andar tão inseguramente pela vida que se bate com a cabeça nas paredes e se continua a caminhar até um deles ceder primeiro.

Quando escrevo há sempre uma certa luxuria envolvida, algum objecto de fascínio e é fácil criar um, contudo não o considero suficiente, porque a minha escrita é um tanto sombria para se dar ao prazer de apenas ser rodeada por um objecto, por um único actor principal. A minha escrita é como uma mulher nua deitada em cima de uma cama de lençóis brancos, que lhe tocam levemente nas pernas, com os lábios carregados de um batôm vermelho e com o cabelo a esvoaçar pela entrada de ar de uma noite amena. É o olhar que penetra na alma como veneno, são os redondos seios que por si só são um facto de admiração, é todo o corpo que parece ter sido moldado perfeitamente como a magistratura principal do quadro, de fundo escuro e apenas um holofote sobre essa deusa. Estilo Caravagio. Negra e profundo, poderosa e acolhedor. É uma serpente que me deixa viciado no perfume do seu veneno.

Numa simples frase descrevo a minha escrita, o meu ser, o meu pensamento. Nos anos 60 Malcolm X disse que a raiva era uma dádiva. Tal como é a raiva é a dor, porque uma não coexiste sem a outra. A dor é uma dádiva. Pode-nos destruir, mas deixemos que ela cresça dentro de nós, canalizando-a e deixando-a crescer e verão que algo de verdadeiramente poderoso acontece. É um veneno, é uma mulher negra de lábios pintados de vermelho numa noite de sonhos...