Friday, February 25, 2011

Coisas do tempo fugido

Vou escrever sobre o que me apetecer:

Sabem sobre o que é que os escritores escrevem? Não, eles não escrevem sobre aquilo que lhes apetece, normalmente é sobre coisas aborrecidas, que nem a eles lhes interessa. Inventam histórias fantásticas, para um público que se faz de exigente, mas no fundo papa tudo aquilo que lhes dão à boca. Um escritor, é um pintor de caneta na mão que escreve sempre o mesmo de formas disfarçadas de nomes diferentes de personagens. Simples e eficaz. Ninguém repara, ninguém se queixa e no fim o escritor ainda recebe. Todos felizes.

Um escritor por norma é mais miserável do que a maioria das pessoas, mas é na sua miséria que se torna superior, mas isso só lhe doí mais. Normalmente, é mais pálido do que a maioria, porque não saí de casa. Os dentes amarelos do tabaco e com barriga a pousar nas pernas quando se senta para escrever. Alguns penteiam-se, outros não, a maioria já não tem cabelo. É dificil conhecer um escritor que queira saber de mais alguém para além de quem vê ao espelho quando se barbeia. Eu disse que são pálidos? São, porque não saem de casa e mesmo assim escrevem sobre a realidade à sua volta. Irónico e brilhante ao mesmo tempo.

Hoje escrevo isto, porque não me apetece escrever sobre mais nada, apetece-me gozar com o próprio facto de eu escrever. Contudo, já não escrevo grande coisa, talvez porque não passo tempo em caso, não sou pálido e tenho os dentes impecavelmente brancos...

Whatever... fuck the Queen and save the Virgins Mary's, not the Virgin Mary but all girl named Mary who are virgins...

Sunday, January 09, 2011

Engano de mentira

Ao olhar para os livros, percebo que estes não dão a verdade. Apenas são parte dela.

Colocamos questões à vida e esperamos por uma resposta, porque na essência somos incapazes de atingir a resposta. Apenas questionamos até possuirmos a verdade e no seu paradoxo sabemos que nunca a teremos. É uma tarefa de vida, para a qual nunca teremos conhecimentos total, porque somos feitos da mesma matéria orgânica que tudo o que é perecível.

Alguns de nós morrerão sem saber amar uma mulher, sem nunca ter lido um livro, sem nunca conhecerem quem são... outros irão amar um mulher e irão ter lido livros, mas jamais irão perguntar à vida pela verdade. A única detentora da verdade. Talvez a consigamos encontrar em locais remotos e afastados do mundo, escrevemos o nosso nome na pedra branca da cidadela e se essa for a sua vontade, quando lá voltarmos lá estará.

A verdade surge em momentos estranhos, irónicos por natureza e que nos fazem sorrir. Talvez a nossa morte anunciada seja a bênção que nos faz viver. Talvez um estranho numa viagem de autocarro seja a melhor amiga durante um dia, ou que um estranho a quem pedimos indicações nos olhe como um filho perdido. Se a verdade só pode ser a morte, então há momentos em que morremos e voltamos à vida só para sentir instantes de realidade.

Para perceber a vida é necessário colocar questões. Para perceber metáforas encobertas num texto é necessário perguntar o significado destas, só então compreendemos. Só então vivemos...

Saturday, December 04, 2010

A conduzir coincidências paradas

Está quieto e vai dormir, tens uma mulher bela à tua espera na cama. São 9 menos um quarto de um sábado e ainda não pregas-te olho desde o meio-dia da sexta-feira preguiçosa, vivida tranquilamente. Está bem, mas deixa-me só acabar este texto e depois vou dormir...

Diálogo interno, que se repete e me aborrece quando a tranquilidade se instala. Não interessa, não interessa mesmo serem 9 da manhã de um sábado e ainda estar acordado, porque hoje sigo as palavras de Byron, hoje não morro mais. Fumo mais um cigarro e mais uma golada na garrafa de whisky que já passa de meio, cria-se algo e mata-se as células nervosas do pensamento, porque esta é a ordem natural da existência. Tal como é o amor entre irmãos que afinal são amigos e entre amigos que afinal são irmãos. Escuta-se atentamente o nascer do sol, cheira-se os raios que incendeiam o céu negro, vê-se a ordem rotineira e matutina do vaivém espacial de passageiros em todas as direcções quanto possam ser transportados, quantas mais houvessem mais perdidos neste mundo tentariam encontrar o seu caminho numa valeta escondida que é esse transporte de alma atroz e penitêncioso quando só apetece é morrer de overdose: tão rápida e dorida como a vida.

Escrevo, porque o amo fazer, é a maior projecção mental dos pensamentos, uma trip de ácidos descarregados em simultâneo. É a última coisa que se poderia fazer, mas é o que faço, porque sinceramente há algo de superior aos esquesitismos apontados e consagrados. Esta é a linha de corte entre a igualdade podre e a verdade dormente. A barriga tem fome, o corpo tem fome, a mente tem fome... de pensamento, de prazer, de carne, de beleza, de conhecimento & de verdade. Cito Thoreau, London... e sou eu, e somos nós todos deste mundo.

Vivam bem!, enquanto eu vou fumar o tabaco dos imortais e já volto...

Sunday, November 07, 2010

Incompleto

Vidas...
O limbo permanente entre a decisão, porque no fundo é isso mesmo que a vida é, um conjunto de decisões que aprendemos a viver. Vivemos todos numa desgraça com muito de vitima, em que gostamos de acreditar que não detemos qualquer poder sobre o destino. Somos as peças de xadrez, as primeiras a caír, os peões que nunca decidem nada. Acordamos adormecidos, vivemos adormecidos, voltamos a adormecer adormecidos. Há sorrisos que se trocam, há outros que apenas visualizamos e que gostariamos de ter a coragem de os exprimir. Porque somos reprimidos, embora gostemos de pensar que somos livres. Ahh, grande Goethe, o verdadeiro erudito que afirmou que os maiores escravos são aqueles que acreditam que são livres. Livres? Como se essa palavra existisse de alguma forma no tempo, no espaço, na realidade...

Todos os dias são uma recriação fantástica da obra de Sam Mendes, todos os dias são uma beleza americana. Todos os dias as mulheres sentem-se reprimidas no casamento que vivem e querem ter um pouco de aventura, todos os dias o ponto alto dos homens é quando no banho se masturbam e de seguida respiram bem fundo para viverem mais um dia no inferno, todos os dias os adolescentes são apanhados numa rede à qual lhes escapa o controlo e vivem a boiar num mar demasiado agitado para eles. Todos os dias, todos os dias, todos os dias...

Prometemos fazer coisas novas, caímos na ilusão de que daqui a 2 anos é que vamos viajar, que daqui a 1 ano começamos a ter uma vida melhor. Promessas vãs, como o fumo de uma jarra de incenso que se balança no ar...

Wednesday, October 27, 2010

Donum Ira

Há um determinado sentido de controlo quando nos encontramos fechados dentro da nossa cabeça, trancados nos nossos pensamentos, que deambulam pela mente como fumo de cigarro pelo ar numa noite fria de inícios de primavera. Hemmingway escreveu que um escritor não se senta à frente de uma máquina e escreve, um escritor pega numa caneta e sangra. Um pensador nem sequer produz algo, apenas sangra até ficar seco como um cadáver sentado na sua poltrona enquanto devora whisky e fuma cachimbo. Curiosamente há mais vida nisso, do que propriamente em andar tão inseguramente pela vida que se bate com a cabeça nas paredes e se continua a caminhar até um deles ceder primeiro.

Quando escrevo há sempre uma certa luxuria envolvida, algum objecto de fascínio e é fácil criar um, contudo não o considero suficiente, porque a minha escrita é um tanto sombria para se dar ao prazer de apenas ser rodeada por um objecto, por um único actor principal. A minha escrita é como uma mulher nua deitada em cima de uma cama de lençóis brancos, que lhe tocam levemente nas pernas, com os lábios carregados de um batôm vermelho e com o cabelo a esvoaçar pela entrada de ar de uma noite amena. É o olhar que penetra na alma como veneno, são os redondos seios que por si só são um facto de admiração, é todo o corpo que parece ter sido moldado perfeitamente como a magistratura principal do quadro, de fundo escuro e apenas um holofote sobre essa deusa. Estilo Caravagio. Negra e profundo, poderosa e acolhedor. É uma serpente que me deixa viciado no perfume do seu veneno.

Numa simples frase descrevo a minha escrita, o meu ser, o meu pensamento. Nos anos 60 Malcolm X disse que a raiva era uma dádiva. Tal como é a raiva é a dor, porque uma não coexiste sem a outra. A dor é uma dádiva. Pode-nos destruir, mas deixemos que ela cresça dentro de nós, canalizando-a e deixando-a crescer e verão que algo de verdadeiramente poderoso acontece. É um veneno, é uma mulher negra de lábios pintados de vermelho numa noite de sonhos...

Sunday, October 17, 2010

P. Vo.1

A profunda dor no peito que se sente
Sempre que nos sentimos sós,
Oh, que tormento, que desavença do espirito
Que não me deixa sonhar hoje

A solidão, que marca o tic tac do cúcu
O esvoaçar que nos indica
Q' a mais nobre das almas
Voará para sempre, e não regressará

Mas isto é viver
Chorar, rir, sentir, respirar e morrer
Não há que temer a solidão, pois...
Só lá os lobos que alimentamos nascem

Saturday, October 09, 2010

A dor é um prazer

A dor. O que é? Falando em termos científicos é uma reacção química do cérebro, mas honestamente desde quando é que alguém quer saber do cientifico? Dor & Prazer andam mutuamente de mãos dadas, como dois meninos homossexuais, sem os quais não poderíamos passar. Lógico, que quem ler isto vai dizer que odeia a dor, mas a verdade é que quando não a têm vão procura-la, eu sou o clássico exemplo disso mesmo. Nada, mas nada neste mundo me pode causar tamanha dor como aquela de que quando escrevo, e mesmo assim todos os dias pego numa caneta e num papel e escrevo. Cada vez que começo a escrever sou Miguel Ângelo a pintar a cúpula da capela sistina, quase um deus. Mas só aqueles que escrevem através da dor é que irão perceber o que eu digo, não há nada pior do que abrir a tampa de uma caneta, folhear o bloco até uma página em branco e não vir nada à cabeça. Nada. Vazio total e completo. Sentimo-nos estúpidos, tão estúpidos como os cães que cheiram o rabo uns aos outros, cada vez que tento escrever e não sou capaz de escrever cinco linhas com o mínimo de sentido sou um cão a cheirar o rabo a outro.

Há quem escreva por alegria, simplesmente não sou capaz... As mulheres são escritoras fantásticas comparadas a qualquer ser que tenha um apêndice proeminente no meio das pernas. É algo que não consigo perceber, mas escrevem com uma facilidade incrível, elas não precisam de todos os dias escrever alguma coisa e eu preciso, nem que seja um post-it no frigorífico a dizer "Mãe não venho jantar". Podem passar meses sem escrever, mas quando o fazem imprimem-lhe uma poetização e uma beleza, que para eu o conseguir tenho suar das palmas das mãos e tomar dois Xanax's para me acalmar, ou então só irei conseguir dormir daí a duas semanas.

Eu sei que escrevo bem, mas não é um dom, para quem me conhece basta olhar para o meu dedo médio da mão direita e vão perceber o porquê de eu ser um Miguel Ângelo a pintar o Vaticano de mulheres nuas enquanto escrevo.