Friday, April 17, 2009

Pragmatismos maldosos

300 canais de telivisão, a vida é absorvida a cada clique do comando, a vida deixa de existir é substituida pela doença que irá matar metade da população mundial, pelo terrorismo, pela ficção, pela crise e pela desgraça mundial. Se algo hoje me preocupa não é a ameaça do terrorismo, preocupa-me mais o novo pacote de 300 canais, a nova promoção telefónica ou a época de saldos. As pessoas tornaram-se brutalmente grostescas para com as outras, deixaram de saber o que é ser humano, procuram a perfeição na nova peça de mobilia, no novo casaco e não vêem que acabam por se tornar um passo mais próximos da selvajaria animal que é constantemente negada. O cómico é que não existe nada para além da estupidificação do momento, a mente em branco, um zuuuum permanente que percorre o crânio, o nada... Tudo perdeu o significado, até a própria existência perdeu significado. Estupidificação momentânea, desistência geral, perca total.

Conheço um Van Gogh, um Pelé ou o Elvis, aliás os seus possiveis sucessores. Um poderia ter sido o próximo Van Gogh, mas sem a parte da orelha cortada, outros o Pelé e outros qualquer comparação aberrante que queiram fazer com uma figura histórica. Contudo, perderam-se no caminho, a estupidificação elimina o prazer do sacrificio. Sem dor, sem sacrificio e muito provavelmente sem medo, nunca nada se alcançou. A estupidificação dos 300 canais é tal que a única coisa que procuram é o próximo comprido mágico que os transforme na versão melhorada que querem ser. Conhecem o caminho, mas mal começam a sentir o cansaço, a dor que será necessária para ultrapassar o desafio, logo desistem. Falso cadafalso de ilusão, que os guia à auto-destruição suicida.

A realidade mais forte vence, mas todos os vencedores tiveram que por na linha de fogo a sua cabeça a prémio, porque o resultado mais não é do que a evolução que se obteve através da experiência. A realidade não é a mesma, eu não vejo a realidade como a via à dois segundos atrás, está em constante mudança e como ela também deverão de estar os nossos sentidos para que possamos evoluir continuamente até à perfeição. O último estádio de desenvolvimento que se possa atingir, é a morte. A morte é a última evolução.

No mundo perfeito, trepadeiras cobriam os imponentes edificios, os autocarros apodreciam abandonados servindo de habitat a veados e esquilos, àguias reais sobrevoavam os céus e as florestas expandem-se sobre as cidades magnificamente sujas de outrora. O rio corria com a água cristalina até chegar em sucessivas cascatas até ao oceano, onde peixes sobem rio acima na incessante luta da desova, e onde mulheres lavam as roupas na àgua transparente. Os homens sobem às árvores, cultivam alimentos e constroem casas de madeira com tectos de ramos de palmeiras. As crianças brincam, sujas e descalças pelo chão, não há nada que alguma vez as possa ferir. Todos andam nús, não há tabboos, condicionamento social, iguais numa terra de iguais. Os jovens juntam-se como em matilhas de lobos e juntos numa demonstração de irmandade masculina correm pela praia pelo divertimento, as jovens raparigas contam histórias umas às outras, penteiam-se e percebem a verdadeira natureza. Não há segundas intenções, não há nada a não ser irmandade e fraternidade entre todos. Poderemos chamar a esta realidade, Neo-Apocalyptico Matrix.

Nunca se saiu de nenhuma luta sem feridas, mas os verdadeiros são os que sorriem ao serem derrotados.

1 comment:

O Pseudo-eu said...

Sorrir à derrota, para vir a chorar, a suar, a gritar pela vitória. Gostei!