Tuesday, June 19, 2007

Memórias de um diálogo com a morte

Tinha deixado de exigir do corpo, tinha chegado á reta final, os seus dedos tinham-se tornado demasiado ossudos para segurarem sequer numa caneta. As forças faltavam e passava os últimos dias sentado, na sua cadeira enorme no meio da sala, ia tirando os cigarros um a um do maço e chupava-os como se fosse o último pedaço de alcatrão que inalasse. O cuco ia dando as horas, naquela atmosfera sombria e despromovida de vida, apenas um esqueleto ia fumando, não se dizia que estava morto apenas pelas bafaradas de fumo que saíam da boca. Todo ele era um pedaço gigantesco de morte, permanecia ali a fumar. O olhar fitava o ar, fixado na janela a olhar para o que se passava lá fora, mas duvido sériamente se alguma vez reparou em quer que fosse. Os cigarros iam-se sucedendo, a pilha de cinza no chão aumentava, a manta que lhe tapava as pernas, já esburacada pelo tempo ia desaparendo lentamente a cinza que caía por lá matava-a e fazia desaparecer o retalho.

Não se lembrava á quanto tempo estava ali, provavelmente um mês, uma semana, um dia, tinha perdido a noção de tempo. Não pensava, não se dava a esse trabalho a que tinha dedicado uma vida. A tosse invadia-o, limpava a boca ocasionalmente com o lenço de pano, em tempos o lenço que transportava sempre no bolso das calças. Redimia-se no que a sua vida se tinha tornado, hoje não tinha a certeza de nada, vivia lado a lado com a morte, não falava com ela. Sentia o bafo podre que lhe passava pela cara, estava a sentir a respiração da morte dizendo-lhe que ele seria o próximo na sua lista. Sentia a sua presença, sabia que não ia durar muito mais tempo. "Leva-me, fodasse, faz o que quiseres." Teria sido as primeiras palavras que proferia em muito tempo, voltou á rotina do cigarro. Durante todo esse tempo fitava o vazio, a vida deixara de ter sentido.

Sabia que já não se poderia levantar, as pernas não eram mais grossas que as de uma criança de 4 anos. A cara em tempos forte e decidida era a cara de um velho, de um velho a morrer. Os ossos faziam-se notar na face, a pele enrugava-se á anos, mas não fazia a ideia do estado, rugas sobrepunham-se, sinais nasceram e manchas eram a sua nova cara. Assemelhava-se a uma velha arvore, que se apodrecia com a fixação de cogumelos e musgos um pouco por toda a sua cobertura. Já não tinha cabelo, ou o pouco que tinha era tão fraco que dava a impressão que com qualquer toque do vento todo ele caíria.

Voltou a soltar uma nuvem de fumo no ar. Agora sentiu o cheiro da morte mais perto, sentia-a á sua frente esperando-o impacientemente. "Faz o que quiseres, mata-me, não ando a fazer nada na merda deste mundo." Tinha voltado a falar, começou a respirar lentamente. "Se tivesse medo de ti já estava morto. És uma filha da puta, escusas de respirar para cima de mim." Voltou a chupar o cigarro " Nem a merda de um velho como eu consegues matar, tiveram que andar aqueles cabrões dos médicos a darem cabo de mim, para te aproveitares. Dou-te mérito, és uma filha da puta, mas ao menos sabes o que fazes. Era quem te fode-se". Esteve um longo periodo parado, respirava lentamente, sentia o cheiro a podre que a sala começava a ganhar e continuou a fumar. Lembrava-se de ser um jovem viril, ter andado na guerra e de ter galado tantas raparigas como as que podia, "Umas putas era o que eram"- pensou ele, não passavam disso.

Mal acabou a frase sentiu o ar faltar-lhe nos pulmões, deixou caír o cigarro no chão, agarrou as mãos aos apoios, contorceu todo o corpo para trás e o olhar agora tinha se tornado fixo num ponto do tecto. Tentava dizer algo que não deu para entender. A pele que cobria a sua caveira tornou-se roxa, á medida que ás veias faltavam o sangue. Contorcia-se cada vez mais e numa agonia sofucante tentava desprender-se daquela cadeira, queria ter forças para se levantar e pedir ajuda. Foi demasiado tarde, a atmosfera mudou, agora uma enorme calma invadia a sala. O cigarro ia comendo a madeira dos tacos, o corpo do velho estava agora adormecido na cadeira. De facto, sentia-se o cheiro a podre, de todo o seu sistema interior apodrecido, do coração parado. Tinha caído alí, na enorme cadeira, fitava agora a janela de novo, um olhar de vidro, longinquo, indiferente.

1 comment:

Luisa said...

Este texto esta realmente bonito.
Apesar de se focar na Morte, fez com que parecesse uma coisa não tão seria do que se pensa.

Esta realmente bom este texto.

Parabens!

:D