Sunday, July 15, 2007

A percepção

Por vezes sente-se uma forte necessidade de escrever, sem saber muito bem aquilo que se quer escrever. Agora que a ponta da esferográfica é substituida pelo teclado negro, em que o escorrer da tinta pelo papel branco transforma-se numa bater sonoro dos dedos no teclado, já não existe mais o escritor de papel. Esse escritor que escrevia debaixo da luz ténue do candeeiro é agora não mais que um imbecil que vai retalhando não só a língua de Camões mas também a de Decartes, de Shakespeare e de Cervantes, hoje em dia mata-se a língua com indocrassias pouco claras, como livros criados a troco de fama e de mais algum objecto que seria necessário, não se escreve por gosto porque já há muito que morremos para a vida, vivemos adormecidos e matamos e estropiamos a língua sem saber o que dizer, quando dizer.

Os génios desaparecidos de há 100 anos atrás chorariam as lágrimas que ainda lhes resta se regressassem a este mundo, porque um mundo de opurtunidades deixou de ser aquele proclamado durante a Revolução Francesa de 1745. Em tempos idos tinha-se o prazer de ler as prosas de Sá Carneiro e de Pessoa, hoje entre imundices conhece-se Sparks e imagens que nos dão aquilo que procuramos. Vamos assim retalhando a cultura que tinhamos, porque o que a vaca dá deixou de ser o principal, o quão bonita que ela é é que pode fazer uma bife apetecivel, entre a imagem e outro qualquer meio de maior importância escolhe-se a imagem, a fama. Inumeros batalhadores rasgam caminhos sozinhos, na escuridão com uma candeia como fundo, tentando alcançar algo que possa ser plausivelmente concreto para ser aceite. Cultiva-se a cultura que não se quer colher, todos querem ser os senhores da razão sem sequer fazerem algo para o mudar. Não se pode mudar sem acção, não basta olharmos e gritarmos o quão alto podermos, porque algo terá que ser feito e por palavras não se alcança.

As revoluções idas foram já esquecidas e somos agora filhos da prostituta gorda que alimenta os alternos do povo. Brincam com os heruditos idiotas do povo, não só com a caneta e o papel os tempos mudaram, hoje pouca importância a tinta e os borrões têm, campanhas de propaganda vendem o que se pretende e enterras-te na lama sem solução. Estrangulam os teus gritos para não serem ouvidos porque desde a secretária ao revolucionário todos foram esquecidos e abafados pela bela ilusão da liberdade. Tenha alguém Orwell e Huxley no seu altar, rezando preces de mudança e tomadas de acção. Manipulados como marionetas de desenhos animados é o que somos sujeitos diáriamente, nas nossas rotinas repetitivas somos mastigados pela máquina imperialista. Os cifrões ditam agora o futuro e entre nevoeiro vai o tempo em que eramos verdadeiramente livres em escolhas.

A miséria é real no mundo, mais do que a riqueza ostentada por tão poucos e tanta importância têm. As vozes deixaram de ser erguidas, porque quando podem preferem o pão nosso de cada dia á mudança que poderia ser operada. Santificado seja o vosso nome ó Deus tão poderoso que tanta miséria trazes e tanto mal ergues no mundo, ó Senhor que Deus és Tu que não acordas, lidera a frente inalvorada que tantos esperam, o terço vai dando as voltas mas porque não te ergues tu do teu caixão de pedra ó senhor do tempo? Não acreditaremos mais nesse Deus tão misericordioso, porque tantas rezas chegam e tão poucas são atentidas. Não, isto não é real porque onde está a justiça no mundo? aqueles que a tentam alcançar não se podem erguer porque logo seremos sacrificados na cruz invertida daquele que vocês alegam ter salvo o mundo. Não, esta não é a realidade que Moore recitava na sua Utopia, este é mais o inferno descrito por João no seu Apocalipse. Não, este mundo precisa de um novo messias renascido dos mortos pelos cifrões. Oh dia esse que não chega, onde castelos impenetráveis serão queimados, dia em que a torre branca de Babel caíra por terra ao som da madeira crepitante pelo fogo que nasceu do ódio dos sofucados. Canções de fraternidade erguersiam até aos céus, irmãos e pais de mãos dadas criarão a corrente do amor pela humanidade que nos irá unir. O dia em que a Anarquia deixará de ser apenas um sonho, Marx, Trotsky e todos os dissidentes do velho mundo; Moore, Huxley e Orwell dançaram nas suas campas e irão nos olhar com o sorriso do fatidico dia. O apocalipse não é mais do que o dia em que a revulação da liberdade chegará, porque esse dia chegará nesta vida ou na próxima, as cidades queimadas serão o simbolo em que finalmente nos libertamos da mão asfixiante do poder.

Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso, seja feita a vossa vontade ó Deus misericordioso que não acordas.

3 comments:

Luisa said...

tens razao no que escreveste, cada vez mais as pessoas nao se preocupam em ler um bom livro.

:)

João Fernandes said...

parece-me que alguem passou um tanto ao lado da mensagem... tenta ler outra vez, ;)

Anonymous said...

um texto bonito, bem escrito um pouco utopico mas o que sería de nós sem a capacidade de sonhar!
Sabes que gosto do que escreves... contínua...
jinho