Friday, November 17, 2006

Ficções do Alabama


"Louis Armstrong, "What an Wonderful World", não passava das duas e meia da tarde e fora destas paredes de vidro uma chuvada sequênciada caía lá fora. Reparei que entre os blocos de pedra já gasta pelo tempo, umas quantas ervas verdes cresciam. Muito provávelmente deviam de renascer com a água caída dos céus, tinham recuperado a cor verde, que agora contrastava com o amarelo pálido dos blocos de pedra.

Lá dentro nenhum de nós falava, enquanto aqueles dois acabavam meio á pressa um trabalho para entreguar nessa mesma tarde, eu permanecia no meu discreto silêncio a ouvir a balada de jazz e observando as gotas cristalinas que lá foram caíam. A chuva era interrupta, em alguns momentos batia nas pedras com verdadeira violência, tendo em conta o minúsculo tamanha que possuíam. Algumas poças surgiam nas depressões do chão, de vez em quando alguma criança menos dotada de inteligência teimava em espetar o pé na poça de água ficando consequentemente molhada até aos joelhos.

-Fodasse, acabem lá essa merda!
Também eu aos soluços ia praguejando algumas barbáries para aqueles dois. Todo aquele cenário começava a tornar-se extremamente monotono, mas também a visão do regresso ás aulas não era propriamente apelativa. Ao contrário das duas figuras ressequidas pelo esforço, eu já tinha acabado á muito aquele trabalho e as minhas preocupações eram quase nulas. Quase! No entanto um impulso dentro de mim crescia, de modo a que todo aquele espectáculo estupendamente aborrecido não se esfuma-se da minha memória.

No momento em que Armstrong, a chuva, as ervas verdes a quebrarem aquele padrão de amarelo no chão um fluxo me invadiu.

-Venham-se embora minhas bestas! - rosnei eu -
Nunca mais acabavam de fazer a merda do trabalho e eu que gramasse com todo aquele aborrecimento, e para mais, travando uma luta pessoal para que não se perde-se para sempre aquela ideia. Raios partam.
2
A chuva agora parou e apenas umas gotas escorrem pela janela. As luzes de fraca intensidade iluminam a escura sala, criando um jogo de sombras no papel do caderno. Enquanto escrevo, algumas ovelhas seguem o caminho traçado pelo carrasco, rumo ao matadouro. Uma ou outra escapam do rebanho e divertem-se a comer as pastagens de mundos paralelos. Lá alimentavam-se dos risos, dos imaginários, da simples provocação ao carrasco e toda uma infinidade de outros imaginários que não me são possiveis criar aqui.

As paredes da sala mais parecem que foram barradas com gordura, tendo ficado esta entranhada no cimento pintado e não pintado. Nunca se deve ter visto nada tão sujo em todas as nossas existências. De repente uma sirene de qualquer organização de boa vontade contra-fogos começa a gritar. Fodasse também para a sirene, já me fez ter que riscar uma linha. Criaturas carênciadas de inteligências estas, a esforçarem os pobres cérebros quando só divagações merdosas lá existe. Eu rio-me, nem daqui a três semanas consegues descobrir que essa merda tão difícil para ti não é mais que uma oração coordenada consecutiva. Tem que ser três semanas, mas três semanas a carborar bem, porque se não passam a ser três meses, para não dizer anos.

A chuva voltou a caír ritmicamente.
-E eu vou pensar por ti queres ver? - respondo eu a um narigudo que a vida dele se tornou demasiado aborrecida e agora gosta de meter o bedelho onde não é chamado.
Onde ia eu? Ah, sim. A chuva tinha voltado a caír, as luzes continuam a mesma, quase em fase terminal todas elas. Estes badamerdas continuam a seguir o carrasco e eu escrevo. Enfim, eu escrevo para me salvar deste mundo tantas vezes aborrecido e monotono. Nove minutos para o final do teste, afinal sempre acabei a tempo"

2 comments:

Ana Luisa said...

obrigado por tudo ! :(

mais um grande texto =D gostei muito looOl

bjs**
obrigado!

Anonymous said...

Your blog keeps getting better and better! Your older articles are not as good as newer ones you have a lot more creativity and originality now keep it up!