Thursday, December 21, 2006

Aqueles que os pensamentos pertencem

Introducção
Ando há vários dias a tentar encontrar dois livros, vou a shoppings e dizem-me que só o mais próximo é que o tem. Dirijo-me a esse outro centro comercial e diz que também não tem, frustrante. Quero ler Aldous Huxley ou George Orwell mas não há em lado nenhum, acho que vou ter que me aguentar com o Humberto Eco, não que não goste dele, mas sempre preferia um dos outros dois. Tento encontrar livros antigos e não arranjo, acontece o mesmo com o cd´s antigos e não há nada para ninguém, é a maior frustração.

Cheguei à estação terminal, Porto São-Bento anúncia a voz metalica e automatizada do comboio, volta a implorar que voltemos sempre e aos empurrões vamos todos saíndo do comboio. A estação continua como sempre, cinzenta, com os mesmos mendigos aos cantos envoltos em cobertures deitados nos seus respectivos bancos. Se não são sempre o mesmo parecem ser, deve ser por não lhes dar grande atenção. Vou caminhando desviando-me das pessoas, levo um ou outro encontos até chegar ao hall principal. Deve de ser o único lugar em condições daquela estação, com os azulejos alusivos á porrada que os Castelhanos levaram em Aljubarrota, há referência de Egas Moniz com a corda ao pescoço pedindo ao rei de Castela para que o enforque. No tecto, a gesso, está escrito DOVRV e BRAGA, ainda continua surpreendentemente branco mesmo devido a toda a poluição que por ali circula.
-Despacha-te que o comboio está a partir. - gritou uma gorda desconhecida para o ar provávelmente para o filho, este apareceu passados instantes a correr feito todo trapalhão. Enfim, as gentes do Porto nunca mais mudam, felizmente.

Desço os dois degraus em pedra da estação, o sol bate-me nos olhos com força, vou desviando o olhar, olho para o chão, também não ia ver nada de muito importante. Passo a correr aqueles paralelos um dia parecidos com pedra e volto a entrar numa estação, agora de metro. Está um frio de rachar na estação, gostava de saber quem foi a ave-rara que se lembrou em fazer tudo em pedra, não tenho que esperar o comboio electrico demora pouco tempo a chegar. Fui automáticamente para o lugar, sentei-me e fui olhando para quem estava á volta, nada de interessante duas mulheres de meia idade e quatro ciganos ao fundo da carruagem, malditos sejam fazem um barulho infernal. O metro começa a subir pelos carris acima, parece-se uma montanha russa em camâra lenta, muito lenta mesmo.

Depois do túnel a vista abre-se para o rio Douro, de um lado e do outro podemos ver aquela estrada de água que distância duas cidades, duas bonitas cidades diga-se. O mesmo rio que estava indicado no tecto da estação, DOVRV. O sol espalha-se por aquele espelho de água, ilumina as duas margens e eu em cima daquela estrutura negra ali a meio do rio, onde o carro eléctrico passa no segundo tabuleiro. Um cenário maravilhoso aquele, a água normalmente preta e suja dali de cima parece um espelho em que foi deitado pó de ouro dando-lhe aquela tonalidade dourada e tão mística. Finalmente o metro chega ao outro lado, á minha esquerda um quartel outrora um convento, que ironico pregavam ali a paz, agora incitam a guerra e as armas, tão elequente. Do outro lado do covento/quartel há um parque, tem uma enorme rocha no meio, trabalhada por um escultor qualquer, a relva está repleta de folhas castanhas e amarelas, podiam ter limpo mas eu também gosto muito mais assim. De novo o sol, ilumina as folhas já mortas, ao menos têm um final digno. O sol ilumina o chão do jardim, esquivando-se dos ramos afiados das árvores, ilumina até a última das folhas do chão se degradar e deixar de existir.

Saío na estação terminal de Gaia, atravesso a rua, ainda dei uma volta. Um funeral decorre numa igreja por detrás da grande superficie comercial. Mais uma vez engraçado, centenas de individuos felizes da vida a comprarem as últimas prendas de Natal e mesmo a cem metros, uma familia e mais umas quantas pessoas choram a morte de um ente querido. A vida é assim cheia de ironias, enquanto a vida assim for vou até aquele jardim a pé, vou-me sentar no grande rochedo e pensar. Pensar na vida, no que ela representa. Nas grandes curvas e malabarismos que a vida nos dá.

Chego ao jardim, sigo o ladrilho marcado no chão, aqui é pedra do outro lado é relva mal aparada com folhas secas de Outono. Chego até ao penedo, ali parado no meio, senhor de todos os bancos e folhas ou até de qualquer ser vivo que ouse lá entrar. Olho para ele e começo a subir pelas descrepâncias criadas pelo artista, chego até chegar ao topo, lá sento-me numa superficie plana de pedra, também esculpida cuidadosamente. Olho á minha volta, ninguém deve de ter visto. Volto a olhar, desta vez para o rio que desaguava na Foz, muito lá ao longe, continua perfeito visto daqui. Penso em qual é o sentido da vida, o que fazemos nós e também vejo á minha frente todos os anos da minha vida e penso: "Já se passaram tantos anos, nem dei por eles" e no entanto volta-me a vir á ideia: "Então lembra-te dos muitos mais que vêem de seguida, espero eu". Pergunto-me qual o sentido de tudo, baixo a cabeça e qual será o futuro destinado para mim? Bem que gostava de saber, gostava de saber as felicidades que a vida me proporcionará. E também gostava de saber quais as rasteiras que me vai pregar mesmo por baixo dos meus olhos e nem vou reparar.

Penso nos que cá estão, penso naqueles que já partiram, ouço aqueles que me são importantes, vejo aqueles que nunca saíram da minha cabeça, encontro o inexplicável, atinjo o que não posso atingir e falo com aqueles que quero estajam onde estiverem. Estão aqui, não estão, mas estão comigo esteja onde estiver, para onde eu for aqueles que eu quero acompanham-me e olham por mim, como eu penso neles. E o sol está a fugir por detrás da cortina de água dourada

2 comments:

Ana Luisa said...

LIndo o texto!
Acho que esta um dos melhores textos que ja escreveste....esta realmente LIndo....ADOREi mesmo!


Parabéns!


Ana Luisa**

Anonymous said...

Confesso ter ficado particularmente presa a uns excertos deste teu texto. O que sobressai é conteúdo pessoal…e na sua é essência… perante tal, calo o teclado, não sem antes escrever, que bom que é reconhecer (desta forma) o que cada um tem a capacidade de ser.
Para aproveitar a onda de desejos de final de ano e não parecer despropositado noutra altura…votos de mais e melhor para o futuro…seja “o” de amanha ou “o” de aqui a muitos anos
:)
ana