Sunday, December 10, 2006

Sol, mas muito frio

Está um tempo gélido, as pessoas queixam-se que está mau tempo, eu não concordo. Acordo com frio e acabo por me deitar engilhado e cheio de frio. As mãos estão sempre frias, á frente do ecrã do computador as mãos continuam geladas e parece que não há nada a ser feito, irei mesmo deitar-me cheio de frio. Mas, não sabem a alegria que estes dias me dão, passear pela Foz do Porto, um dos poucos locais que eu ainda gosto desta cidade, com o sol a bater na cara. Mas é um sol que nem aquece, o sol está lá e por fotografias bem podia parecer que era um dia de Verão, não fossem os casacos, cachecóis e toda essa parfenália de roupa que usamos para nos protegermos do frio. Eu gosto destes dias, o sol lá está e os ocúlos de sol são necessários, contudo não existe calor, nem corpos transpirados, bem pelo contrário estamos é todos desejosos de calor e que levem este frio todo embora.

Gosto de passar assim um Domingo e a maior alegria que me podem dar é estar uma tarde numa esplanada com sol, seja Inverno ou Verão, desde que haja sol! Agora no Inverno, é estarmos espreguiçados na cadeira de lona, todos encolhidos com medo que alguma brecha do casaco deixe passar frio, com o sol lá em cima, mas sem calor. É bom trocar a Coca-Cola com dois pedrinhas de gelo e rodela de limão no copo, por um café a escaldar que ainda deita fumo. Não importa com quem estamos, ou até se estivermos sozinhos para mim é bom de qualquer das formas. As folhas já escritas em cima da mesa, também estas resguardadas do frio por uma capa em couro, o café à muito que já lá foi e agora só as borras do respectivo é que ainda lá continuavam. Arranjo o cachecol, já estava a entrar demasiado frio.

As pessoas vão aproveitando estas poucas horas de sol para passearem na avenida, outros levam os seus cães, a maioria deles também friorentos como os donos. Ainda se consegue ver um ou outro turista mais distraido que se enganou na época do ano, provavelmente dois aventureiros a dormirem em pousadas da juventude. Eu ali, parado, quase adormecido por completo, nada me poderia quebrar aquela paz. Como eu gosto do Inverno em dias de sol, com chuva também não me importo, mas aí já as esplanadas estão vazias, já não há cães nem donos cheios de frio, os turistas refugiados ainda na pousada da juventude á espera de um taxi. E, para além do mais, já não há frio. Sim, porque a chuva leva o frio todo embora e o único momento mais agradável é ouvir as gotas de chuva a caírem nas mesas de chapa metalica fazendo aquele barulhinho tão engraçado.

Agora com este frio e por obra de algumas marés já o mar está bravo e sem grandes condições para um mergulho. Para mim nunca esteve de qualquer das formas. Nunca fui dado a estas praias aqui do Norte, em qualquer altura do ano a água está gelada e mal encontra o meus pés uma reacção de tortura é desencadeada. Quanto mais no Inverno, isso é para aqueles putos já filhos da faina que para puro show exibicional, atiram-se do pontão do farol. Tudo isto em troca de uns olhares por parte dos turistas e algum respeito que as míuditas ganham por eles. Agora neste pico gelado do ano já nem os putos exibicionistas estão em cima do pontão a porem a sua testosterona á prova. O único elemento daquele praia que parece inalterável são as quantidades de lixo que o mar trás á costa, só mesmo isso para ser a mesma praia de sempre, quase irreconhecível diria eu.

Já não há testes, sem preocupações vive-se este momento de pleno sossego. Ao que parece já se querem ir embora, há pessoas que não querem, ou não têm o tacto ou o bom senso, de apreciar estes momentos. Muitas tardes como estas que venham, para eu ir continuando aos poucos e poucos a encontrar novos e melhores motivos para escrever, afinal até as gotas da chuva são um bom caminho para se fazer um texto, mas gosto mais das tardes gélidas e solarengas. O Natal a bater aí à porta e dias como este, ainda dizem que o Pai Natal não existe.

4 comments:

Anonymous said...

Que belo guia turistico do sol de inverno. :)

deixo-te aqui um texto meu inspirado neste mesmo sol...

Nos dias cinzentos, em que somos absorvidos pela tonalidade predominante ou procuramos encontrar a beleza que nela se revela, vem o Sol, revelar, despertar, realçar, iluminar momentos, fazendo-os brilhar, concedendo-lhe aquele calor reconfortante. Conforto redobrado pela, sempre angélica, expressão de quem dorme. Tu, deitado num degrau da escadaria da igreja és a imagem do calor. Frio o teu degrau. Frias as minhas mãos. Ficamos como gatos que se aquecem num foco esquecido entre as nuvens. Tu deitado, a viúva corcovada e eu de pé. A viúva escanzelada dá migalhas de pão aos pombos e a criança que a observava corre para a mãe dizendo, “Tenho fome”. Eu, tenho frio. Apagaram-me o foco mas não saí da acção. Dormes agora para um plano que é só teu, és a imagem do calor. Deitas a cabeça sobre os braços como se a embalasses deste tempo de que te resgatas. Aqueceu-me o rosto aquele sol de Inverno, gelam-me os pés à medida que me afasto da tua visão. Vou até junto da viúva e peço-lhe pão. Um pão, não quero migalhas. “Menina, isto foi o que sobrou do almoço do meu marido”. E o preto? Absorve a radiação solar. Um sol que incide sobre teu rosto adormecido. Aceito as migalhas que a senhora magra de preto rouba dos seus pombos e caminho friamente na tua direcção. Sento-me no teu degrau. Frio. Frias as minhas mãos que aqueço no teu rosto. És a imagem do calor sorridente, que em troca das migalhas que te dou, me convida a partilhar deste acto caloroso.

João Fernandes said...

Bem, o poderei eu dizer?

Em primeiro lugar, podias ter deixado o anonimato e identificares-te, porque com um texto como o que escreves-te não sei a necessidade de pores em anónimo.

Segundo, penso e de sincera justiça que o teu texto bate aos pontos o que eu escrevi. Gostei mesmo do texto, foi o melhor comentário que me poderiam ter feito. Pena que os comentários de todos não possam ser assim, que mais? Estás de parabens, porque este foi sem dúvida um grande texto!! ;)

Sempre que desejares sente-te livre a visitares este blog que a aos poucos vai crescendo. Já agora, sempre que possivel deixa a tua marca por aqui! Até...

Nuno said...

Ambos muito bons.

Mas fogo, detesto o Inverno.

Para o anónimo, esse texto está mesmo a pedir uma reedição com formatação de poesia.

Anonymous said...

Já sou leitora assídua do teu blog … é no que dá entrar e sair sem bater à porta
Mais uma vez, desculpa o anonimato.
Esqueci-me de “como o detestas” :)
Sou a do “… soma e segue…” no “Ilusões 1”
sem nick… sou a ana ;)

Obrigada pelos comentários ao meu texto. Gostei bastante do teu , mto observador… e senti-o com a mesma “temperatura” que tentei imprimir no meu…
Foi por esta razão que resolvi partilhá-lo contigo.

Boa escrita, continua…

ana