Monday, February 12, 2007

Vamos improvisar

Era noite escura, a estrada estava deserta e dos seus lados surgia uma planicíe estéril que nada de apelativo apresentava. Ao contrário do que se poderia pensar, na parte de fora o ar era gélido, e os poucos centimetros de vidro, separavam o frio desértico do calor ,que o ar condicionado expelia aos soluços. Conduzia, as suas mão poderiam ser fácilmente confundidas com as mãos de um morto, devido á dificuldade que o sangue tinha em irrigar aquela extremidade do corpo. Podia compreender, que o seu casaco não oferecia grande protecção contra o frio agreste, mesmo tendo a solfagem no máximo. Ao seu lado, enroscada sobre o próprio corpo, coberta por um cobertor velho, que por sinal as traças já tinham feito alguns buracos, encontrava-se a sua namorada. ( Não me perguntem pelo nome deles, que os minutos em que os observei, nunca pronunciaram o nome um do outro ) . Não dava sinais de acordar, em alguns momentos podia-se ver que um sono bastante leve tomava conta dela, pois sempre que o carro sofria algum solavanco, devido ao mau estado da estrada, abria ligeiramente os olhos mas muito rapidamente os voltava a cerrar.

O vidro embaciava constantemente, a visão da estrada não era das melhores. Agora a planicie começava a desaparecer atrás deles, começavam a surgir algumas colinas que obviamente teriam que recortar. Sinceramente, no momento em que os observava, não me deram um prazer especial, não falavam, o que fazia com que fosse perdendo o interesse naquela visão a cada segundo que passasse. Tinha uma atenção especial nela, era bonita, tinha uns cabelos castanho-claro, algumas rastas pediam-lhe pela cabeça abaixo e apresentava um rosto bastante simpático. Ele para além da barba por fazer apresentava um aspecto um tanto desmanzelado, o que me fez perguntar o que andava uma rapariga como ela a fazer no mesmo carro que ele.

Ela finalmente acordou no momento em que iniciavam o percurso entre as montanhas rochosas, que não davam sinais de qualquer forma de vida ali existente. De um lado era a rocha sólida e concreta, do seu lado esquerdo pendia o precipicio que se unia com a planície lá em baixo. Quando ela acordou pude reparar, que a beleza que parecia ostentar era de facto veridica e não um truque furtuíto do meu sono. Endireitou-se no banco, enroscou-se mais um pouco no cobertor velho. Daquele ponto alto podia-se começar a vislumbrar os primeiros raios solares do novo dia. Não falavam, apenas escutavam a música que saía das colunas do carro. Era música jazz, se não estou a caír na tentação do erro, mas pareceu-me que também surgia por aqui e por ali uns sons mais emos.

Finalmente falaram:
-Dormis-te bem? - perguntou ele, com uma voz que mostrava a clara carência de horas de sono.
Ela mais não fez se não afirmar com a cabeça um sim e proferir entre lábios cerrados um "hm hm".
-Ainda falta bastante para a viagem acabar, do ponto do mid-west de que viemos até Los Angles ainda é um bom bocado. - Suspirou, e olhou para o ponteiro que marcava a gasolina ainda disponível e então prosseguio. - Umas três horas.
Ela não respondeu, ele que como já o referi, parecia evidentemente tocado pelo sono, também não fez por dar continuação á conversa. Passou mais umas poucas música na rádio, o sol neste momento já ia alto, ela acendeu um cigarro e o carro depressa ficou absorto dentro de todo o fumo expelido pelo tabaco a ser queimado.
-Porque estás a fazer isto?
-A fazer isto o quê? - perguntou ele
- Esta conversa de ocasião, sabes bem que não quero falar contigo e só continuo aqui até chegarmos a L.A.
-É esse o prémio que me dás por estar a conduzir á 14 horas e ter levado de uma ponta até há outra do país? Grande consideração.
-Ouve! Eu não me interesso mais por ti, só não saío aqui porque estamos no meio do nada. - disse isto aos gritos. - Vê se te calas e não voltes a falar comigo.
-Na próxima estação de serviço deixo-te lá.
Ele durante toda a conversa, se assim lhe podemos chamar continuou calmo ao contrário dela, o que pela minha parte só veio demonstrar o seu mau génio.

Depois desta frase, a conversa e as próprias acções descontrolaram-se. Não consegui perceber grande coisa, ela começou a gritar com ele, ele perdeu toda a calma e a frustração de ter perdido a namorada numa viagem daquelas veio ao de cima. Não consegui perceber mais nada, o som do rádio foi completamente abafado pelos gritos e não tardou a que ela começa-se a empurrá-lo. Ele tirou os olhos da estrada, conduzia com uma só mão, enquanto gritava e tentava arrancar a mão dela que agarra o seu braço. O cenário de uma manhã calma no meio do deserto foi interrompido por todo este caos, o cigarro queimava o tapete do carro e já nada percebia do que diziam. O carro aumentava a velocidade gradualmente, as vozes faziam parte da música e á frente apresentava-se uma curva, ele não dava sinais de parar. O que ouvi a seguir não foi mais se não o som de um carro que deslizava pelo precipicio abaixo até finalmente a chapa velha colidir com o chão de areia


Fim

1 comment:

Ana Luisa said...

Pois é, por vezes acordamos e tudo esta bem..ou se calhar nao temos bem a noçao...mas quando nos apercebemos da realidade é bem mais dificil lidar com ela!