Sunday, March 25, 2007

Vida desperdiçada

Há imagens que nos conseguem marcar, que durante anos lembrarmo-nos daquele momento. São momentos, que só a nós nos demonstram algum sentimento escondido, os outros tiveram a infelicidade dos seus olhos não conseguirem captar tal momento. A nossa memória por qualquer razão guarda-os e não deixa que se apaguem, em alguns dias aquelas imagens percorrem o nosso pensamento e as nossas emoções demonstram-se, como resultado dessas lembranças, julgadas como esquecidas. Não acontece a todas as pessoas, porque é preciso as pessoas possuirem qualquer tipo de "amizade" para com o desconhecido, para conseguir, imaginar, sentir o que o outro também sente. Por incrivel que pareça, já não existem tantos momentos como estes, como deveriam de existir, talvez porque nas grandes cidades surgiu o complexo de não mostrar qualquer compaixão pelo outro, isolamo-nos e o que não diz respeito á nossa vida, não interessa.

Aqui á tempos, quando vinha de carro para casa, houve uma imagem que me marcou em particular: vi um senhor, com os seus setenta e muitos anos a carregarem-lhe nas costas, - talvez fosse por causa disso que andava visivelmente curvado -, de aspecto cansado, vestido de negro, com uma coroa de flores a penderem-lhe pelo braço direito e com o rosto lavado em lágrimas. Olhei para ele, o senhor olhou para dentro do vidro do carro e numa fracção de segundos acordaram memórias esquecidas, que nem se sabe se é preferivel estarem acordadas ou adormecidas. Não foram mais que segundos, a ele não lhe significou coisa nenhuma, a mim uma imagem que ficou gravada na memória por muito tempo. Não me interessa saber quem faleceu, se a sua esposa, irmã/ão ou filho, não me provocou qualquer interesse em ir folhear as páginas de jornal na procura do seu familiar, porque não existiu, nem existirá qualquer interesse. Marcou a troca de olhares e mais que isso sentir o que o outro estava a sentir.

É uma sensação estranha, é uma dor que não para e destroi, corrompe porque não podemos fazer nada e sentimo-nos uns bonecos controlados pelo destino. Caminhamos por ruas sem saber o destino, até passarem as horas, não pensamos, nem agimos, apenas somos um corpo que não consegue pensar, que é controlado por uma força interior que não conhece, somos nós porque reconhecemos as lágrimas a escorrerem pela face e somos obrigados a seguir os outros. Estamos dentro de um filme a preto e branco, protagonizamos o papel de personagem principal e sentimo-nos impotentes, temos vontade de fazer o que já não podemos e arrependemo-nos do que não fizemos.

Se há algo que não consiga entender é a vida, ou melhor, a nossa existência. Fico calado, a pensar em nada concreto, nada nesta vida é concreto, somos um mundo heregido em sombras e pó, nascemos e caminhamos para a nossa morte, sem termos a consciência disso. Sou incapaz de escrever o que é a vida, o que sobra dela ou o que existe para além dela, penso demasiado nesta, e sei que na expressão daquele homem estava escrito parte restante da sua vida, não conseguimos apagar, nem esquecer, por mais fechado que esteja eclode a qualquer momento e sentimos tudo de novo. Há fardos que a vida nos obriga a carregar, a morte é um desses fardos que cada vez fica mais pesado, até nos tornarmos o peso no pensamento de outros.

1 comment:

Luisa said...

LINDO o texto mesmo!
O que dizes é bem verdade e eu dou por muitas vezes a pensar o que realmente muda na nossa vida numa fracçao de segundo sem dar-mos conta!!!

Continua assim a escrever, os teus textos sao sempre optimos!