Wednesday, April 11, 2007

Espelhos distorcidos

"8.15
Metro de Nova York

Estava um dia cinzento, as nuvens pintavam os céus recortados pelos prédios, vive-se na sombra, mas hoje toda a cidade não era mais que uma mancha de sombra gigante. As ruas, como é normal a qualquer hora do dia encontra-se cheia de pessoas de todos os géneros, correctores financeiros, homens de negócio, desde os mais altos cargos em empresas que dominam o mundo até varredores de rua e empregados de café, é assim que os passeios de N.Y. são pintados. No esfalto, a separar os dois passeios, filas intermináveis de carros, táxis e limusines matutinas, apesar de ainda estar a começar o dia, a cidade vibra de frenetismo, todos parecem ter bebido tanto café até não saberem o que pensar, apenas guiados pelos sapatos dirigem-se cada um até ao seu caminho. É assim que Nova York vive, todos os dias, sem excepção, ao contrário da sua irmã mais velha do outro lado do oceano, a pequena cidade de York.

Se algum dia estiver em Nova York não se admire ao pensar, que toda a cidade teve a mesma ideia que você, porque realmente estiveram, uma cidade sobrelotada, em que todos pensam da mesma forma, por exclusão de partes. Quer estejamos á espera dum táxi, ou na estação de metro dezenas de pessoas também lá estão, se temos a ideia de tomar café outras dezenas também o tiveram, e por consequência as filas são inevitáveis. Não vivi muito tempo em Nova York, apenas o suficiente para me aperceber da vida desta cidade, o único momento em estamos sozinho sem ninguém por perto é em casa. Pouco importa se é nas filas, no metro e raras as vezes nos elevadores, em que vamos a respirar o ar de outra pessoa, um sufoco, mas acabamos por nos habituar. No meio de tanto pensamento não pensado, mas puramente impulsionado sucede que não reparamos no que tem verdadeira beleza, porque simplesmente tentamos sobreviver e sermos mais rápidos que os outros.

Num certo dia, sem poder confirmar uma data precisa, fiz uma viagem a Boston. Nesta mesma cidade, as pessoas comportavam-se da mesma forma, ia a caminho do Symphony Hall de Boston para preparar um concerto, e tive uma ideia sem saber de onde tinha aparecido, - uma daquelas ideias que não surgem todos os dias e daí a sua beleza -, podia ver que nenhuma das pessoas no comboio do metro olhava umas para as outras, não olhavam para a cara, não se interessavam pelo ambiente que os rodeava. Decidi nesse momento fazer uma experiência mal chega-se a Nova York de novo.

Quando voltei á "grande maçã" pus o meu plano em prática, as 8:15, plena hora de ponta, em vez de me dirigir para a editora decidi criar um pequeno contra-tempo. Na mesma estação de habitual do meu embarque, encostei-me a uma das paredes, ao fundo das escadas, abri a caixa do violino, retirei-o, deixei a caixa aberta para ver se alguém se oferecia a depositar uma moeda a um pobre violinista sem sucesso, que a sorte lhe ditou as estações de metro. Comecei a tocar, ninguém deu grande atenção, á excepção das crianças, essa foram as únicas, agarravam os casacos dos pais a pedir para ficarem ali a ouvir, mas os pedidos eram redundantes, ninguém lhes concedia aquele desejo. Toquei até meio da manhã, por volta das 10 e pouco. Quando terminei foi impossivel não soltar uma gargalhada de riso, com uma camisa aberta a mostrar a t-shirt branca, um boné na cabeça e calças de ganga e sapatilhas dignas de qualquer adolescente consegui amealhar umas quantas moedas, as suficiêntes para tomar um café, com essa mesma roupa e com um violino não fiz mais que dois dólares. Pouco, demasiado pouco.

Três dias antes no Symphony Hall de Boston, actuei perante 4 mil pessoas, com o mesmo Stradivarius de 1713 - que vale 3,5 milhões de dólares- com que actuei na estação de metro. Toquei as mesmas músicas que tinha tocado em Boston, mas ao contrário ninguém me bateu palmas, nem pagaram por cadeira 250 dólares, porque no fundo era apenas um puto a tocar violino. Três dias separam três das mais belas sinfonias em violino de umas músicas vulgares sem qualquer valor, apenas as mudei de ambiente e só os mais novos as reconheceram. Quantos passaram por ali e a tinham ouvido três dias antes e pensaram: "Magnifico! Eu adoro este violinista", mais tarde nem atenção deram, porque era apenas um puto sem emprego a tentar ganhar dinheiro. Hoje em dia as pessoas só dão valor ao que estiver dentro do meio e ao aspecto, se retirarem um quadro da Mona Lisa do Louvre, e o espetarem numa parede de restaurante, ninguém irá reconhecer, porque é mais uma daquelas imitações mal feitas. As sinfonias que toquei são o mesmo, dentro de uma casa de música são fantásticas, numa estação de metro apenas notas sem conecção.

Meus amigos prestem mais atenção ao vosso ambiente circundante, não se deixem ser induzidos em erros pelo senso comum que todos temos, diante do vosso nariz pode estar algo que sempre pretenderam, mas como não está escrito em letras garrafais ( ou ninguém pede 200 mocas para entrar ) não significa, que não é aquilo de que sempre estiveram á espera. A vida escreve-se direito, mas por linhas tortas, raramente temos aquilo que queremos exactamente desse modo, mas basta estar um pouco mais atento, que está lá"

Este texto é inspirado numa situação semelhante que se sucedeu no metro de Nova York com o violinista Joshua Bell, adaptei-a, claro está e acrescentei alguma magia. A verdadeira história encontra-se aqui.

1 comment:

Luisa said...

Muito giro o texto!

Como uma pessoa pode ser tao importante para uns, e tao insignificante para outros?!

bjinho